Por Eduardo Martins

O Que Pensa o Maior dos Patrocinadores?

Foi uma pergunta do tipo “saia justa”:

– Se não houvesse incentivo fiscal, como seria a política de cultura do BNDES?

Luciane Gorgulho para, pensa, reconhece que a pergunta foi saia justa mesmo, e em seguida conta o que acha sobre a lei Rouanet, seus méritos e carências, e muitas outras coisas numa longa conversa em que se abordou temas como estratégia, comunicação, e, principalmente, como funciona a máquina do BNDES que tornou a empresa a maior patrocinadora cultural dos últimos quatro anos.

Luciane sabe do que fala. Ninguém passa tanto tempo à frente de um cargo onde se manipula verbas que podem viabilizar grandes e (alguns) pequenos sonhos, atravessando governos e presidentes com diferentes matizes políticos e, mesmo assim, continuar lá. E esse lá se chama DECULT – Departamento de Economia da Cultura do principal Banco de fomento brasileiro. E Luciane Gorgulho o chefia desde 2006.

Luciane Gorgulho comanda o Departamento de Economia da Cultura do BNDES.

Sobre a primeira pergunta, após breve período de hesitação, reconheceu que a política cultural certamente seria outra e dependeria de decisões superiores. E nada leva a crer que a empresa pensaria em tirar do próprio bolso uma média superior a R$ 50 milhões por ano aplicados em projetos culturais se não pudesse utilizar lei de incentivo. Luciane reconhece isso e não está sozinha. Esse pensamento também prevalece na média do pensamento dos manipuladores de patrocínio do mercado.

O mérito do BNDES, à parte o excepcional volume aplicado em cultura que já beira os R$ 500 milhões, é dar transparência ao que faz com o dinheiro. Esse motivo originou a entrevista porque, se há uma coisa que cada vez mais será revelada nesse Portal, é a transparência que as empresas dão à renúncia fiscal que utilizam. Na nossa avaliação, que vai de 1 a 5 estrelas nesse quesito, a maioria tira zero. E o mais chocante: de um universo de mil empresas pesquisadas, somente duas obtiveram cinco estrelas – BNDES foi uma delas.

É tanta informação sobre o que faz na área da cultura, que chega a ser até confuso pesquisar algo mais específico no site da empresa. Mas estão lá os apoios a vários segmentos, valores utilizados, diversas formas de patrocínio e financiamento, editais, Política, critérios, cartilha, e-mail para contato, números do Procult de 2007 a 2016, entre outros dados que mostram, pelo menos, respeito ao divulgar o que é feito com a verba que, na maioria dos casos, nem a ela pertence.

Luciane demonstrou entusiasmo ao ser informada sobre esse detalhe estrelado (que revelamos abaixo como uma forma de mensagem para as outras empresas) e alongou-se sobre vários assuntos, cujos extratos podem ser lidos abaixo. Também participaram do encontro Ana Paula Gorini, Chefe do Departamento de Patrocínio do BNDES, e Fabiano Nascimento, Gerente do Departamento de Patrocínio.

Reação de Luciane Gorulho ao saber que o BNDES mereceu 5 estrelas pela transparência

 

Sobre o DECULT

“Talvez seja a jabuticaba dentro do BNDES; é preciso fazer essa ressalva. Ele está dentro da estrutura operacional da empresa e não está ligado às ações de comunicação e patrocínio. Foi criado em 2006 com a filosofia de que a economia criou seu valor. Criou linha de crédito – o Procult – já que o Banco faz empréstimo para todos os setores da economia e o faz também para a cultura.

O fato de ter criado esse Departamento ajudou muito o Banco a refletir estrategicamente sobre esse setor porque, como todo departamento operacional do BNDES, a gente tem uma gerência que se chama gerência setorial, que é uma unidade mais de pensar o planejamento, estudar o setor, indicadores, conversar com os pares, ajudar a formar nossa estratégia, publicar artigos, faz coisas desse tipo.”

Muita empresa usa o financiamento?

“Muita. A gente tem uma carteira grande. O financiamento começa a partir de 1 milhão de reais e tem mais de 100 operações feitas. O audiovisual é o carro-chefe, que envolve produtora, sala de cinema, exibidora. Tem livraria, tem editora. Tem games agora, setor que está crescendo. E com linhas de créditos, só que elas foram adaptadas com condições para atender pequena e média empresa. O BNDES, que é conhecido só como Banco das grandes empresas, faz esse tipo de operação com empresas pequenas também, só que as pessoas às vezes esquecem.”

Sobre o Procult

“O acumulado dele é até bem grande –  passa de 1 bilhão. Porque ele é desenhado para viabilizar operação de empresas pequenas e empresas públicas, mas tem meia dúzia de operações que foram grandes, para empresas grandes como redes de livrarias, editorias de maior porte, que tomaram financiamentos maiores. Em termos anuais, ele está girando em torno de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões por ano, que é bastante em termos de linha de crédito.

A criação do Procult foi baseada no diagnóstico de que os segmentos ligados à cultura precisavam. As empresas viviam muito de patrocínio, de edital, e tinham pouca estruturação como empresa, usavam poucas linhas de créditos, todos os instrumentos financeiros, e aí por que não mudavam? Porque são pequenas e aí o Banco não financia porque não tem garantia real, então, em função desses diagnósticos, desses indicadores, e mais artigos setoriais, foi o que fizemos ao longo do caminho”.

Sobre audiovisual, um dos segmentos preferidos

“O PIB da economia da cultura já está na faixa de 2,7% e só o audiovisual contribui com 0,5% do PIB. Então isso ajudou muito a dar essa densidade de ter uma equipe dedicada a pensar políticas, implementar políticas, trocar experiências com os pares, medir, publicar artigos…”

Sobre Patrimônio Histórico, caso à parte

“O Decult foi criado em 2006 com a filosofia de que a economia criou seu valor e ele tem também linha de crédito – o Procult – pois, já que o Banco faz empréstimo para todos os setores da economia faz também para a cultura, mas, na divisão de tarefas, a parte de Patrimônio Histórico, que é apoiado por uma verba não reembolsável (a gente nem diz que é patrocínio porque, como não está ligada a uma ação de comunicação, mas sim a uma ação operacional, de desenvolvimento do BNDES), o Patrimônio Histórico ficou ali no Departamento de Economia da Cultura porque era uma ação que o Banco já fazia desde 2005 com a lei Rouanet, e ele já era um dos principais apoiadores desde 1997.”

Sobre Política de Patrocínio (respondido por Ana Gorini).

“Nossa ação é muito ligada à comunicação e retorno de imagem do BNDES e querendo falar com nosso público-alvo e com a sociedade. Então a gente busca eventos que tenham esse perfil. Ao longo dos anos a gente vem aprimorando nossa política de comunicação. Atualmente temos focos em eventos culturais, educacionais e de esporte, e além disso temos os eventos técnicos, que chamamos de setoriais, que são setores em que o BNDES atua, e aí é um público como nossos clientes, palestras, etc.”

É sempre via edital?

Ana Gorini, chefe do Departamento de Patrocínio do BNDES.

“Nós estamos evoluindo, querendo colocar bem mais força nos editais, tendo em vista a dar mais transparência para nossos processos e a gente acabou de fazer para os eventos técnicos um edital onde selecionamos projetos para até o final do ano, e para projetos culturais acabou de sair a chamada para 21 projetos escolhidos, também até o final de 2017. Para 2018 a gente deve lançar logo algumas chamadas para editais. ”

*Eduardo Martins é Editor Geral de Conteúdo dos portais Marketing Cultural e Portal de Patrocinadores. 

Acessando nosso conteúdo premium você vai conhecer a entrevista completa, com as respostas de Luciane Gorgulho sobre a política do BNDES sem lei de incentivo, o que pensa sobre a lei Rouanet e, especificamente, sobre os 100% de abatimento que esse instrumento oferece. Vai, também, poder assistir vídeo da entrevista completa e a reação dos entrevistados a várias perguntas, ouvir o áudio completo, de acessar tabelas com resumo dos investimentos em cultura feitos pelo BNDES, áreas beneficiadas, número de projetos e valores aplicados, ano a ano.

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