Por Eduardo Martins

Saiba Porque Cinco Estrelas Foi Pouco Para o Itaú Cultural

“As empresas precisam ter a percepção de que o investimento na cultura tem como primeiro papel alavancar a cultura, fomentar a arte, fortalecer o campo do mundo das manifestações culturais. Este é o pressuposto”.

Se um mantra pudesse ser criado para nortear o pensamento daqueles que patrocinam cultura no Brasil, meu voto seria para essas frases de Eduardo Saron, porque elas resumem e apontam para a grande distorção que a não-política cultural existente no Brasil acabou levando patrocinadores a ter nas leis de incentivo a premissa maior para se apoiar um projeto.

Nossa conversa com o Diretor Superintendente do Itaú Cultural durou 47 minutos e nesse espaço de tempo foram produzidas algumas citações que demorei 20 anos para ouvir de um dirigente de empresa e a principal delas foi: “a partir desse ano não vamos mais utilizar lei de incentivo”. Ainda perplexo, perguntei:

– No mesmo volume”?

– Sim, no mesmo volume.

Esse “volume” é a nada desprezível quantia de R$ 90 milhões que o Itaú Cultural utilizou no ano passado para viabilizar suas exposições, shows, produtos e o programa Rumos, entre outros, obedecendo a um processo que lá em 2009 atingiu o ponto de curva entre o investimento privado e o incentivado. Em 2016, somente R$ 14 milhões foram aplicados via lei Rouanet.

A decisão de não utilizar mais lei de incentivo não é inédita; outras empresas já o fizeram. A diferença é que foi tomada não por não terem imposto a pagar, por não quererem mais patrocinar projetos, por darem prioridade a outros setores sociais, qualquer outro motivo, enfim, exceto por ser uma política de patrocínio tendo à disposição aporte tão alto de verba.

E a origem da entrevista foi por todos os investimentos, públicos ou privados, todos os projetos patrocinados com suas respectivas verbas, formas de contato, de participação, filosofia, critérios Política de Patrocínio, estarem à disposição do público, acessível por meio do site da instituição com a rubrica “Uso da lei Rouanet”. O investimento total do grupo também está lá.

Esse peito aberto coaduna com outro pensamento de Saron: “é preciso ir além do “core”. É preciso ter causa”.

Como já explicamos em algum outro ponto, entre vários textos de lançamento de nossos Portais, se há uma coisa que o Portal de Patrocinadores vai perseguir é a transparência que as empresas devem dar ao dinheiro público que usufruem via incentivo fiscal. O levantamento que fizemos sobre esse quesito, que é um dos critérios de avaliação de nosso Perfil de Patrocinadores, demonstrou um resultado vergonhoso: das mil empresas pesquisadas, somente duas obtiveram gradação máxima resultante dos vários itens que instituímos para avaliar a transparência que cada uma dá ao incentivo fiscal que utiliza. De mil, só duas. A maioria – e põe maioria nisso – entre notas de 0 a 5, tirou zero.

O Itaú Cultural foi uma das que obtiveram cinco estrelas e, se eu pudesse, daria seis. Há vários motivos que me levariam a isso e todos estão explícitos na entrevista que você pode ler abaixo e que recomendo fortemente.

Ao nosso assinante reservamos ainda a íntegra da conversa com Eduardo Saron em texto, áudio e vídeo.

Aproveitem. Vale a pena.

Por que o Itaú Cultural resolveu dar transparência para seus investimentos?

O Itaú Unibanco, o Banco como um todo, tem a compreensão de que cultura é um ato transformador. A cultura e a arte ajudam a construir um pensamento crítico. Partindo dessa compreensão investir em cultura é assumir um compromisso com o Brasil. Numa empresa com o tamanho do Itaú, líder do segmento, referência não só no Brasil, mas internacionalmente, é preciso ir além do “core”. Precisa ir além de prestar um bom serviço, de atender adequadamente seus clientes, de pagar seus impostos, de ter um compromisso ético com a sociedade… ela precisa ir além disso. O “core” é algo que todo dia precisa ser perseguido, mas ao ir além do “core” ela precisa ter causas, como a causa da educação, como projetos do Itaú Social e, no nosso caso, do Itaú Cultural, com esse programa voltado para o campo da cultura. Então, ir além do “core” representa ter causas sólidas, perenes, mas precisa, fundamentalmente, ter uma coerência com o que se é feito. Não adianta você ter uma performance maravilhosa e uma causa frágil; também não adianta você ter uma causa fantástica e uma performance do “core” frágil. Então essas duas coisas precisam ter coerência.

Eduardo Saron – Diretor Superintendente do Itaú Cultural

Mas você só consegue um nível de coerência entre “core” e causa, só consegue ter uma causa forte, com consistência, com organicidade, com sentido de perenidade, se esse nível de coerência for amalgamado, entrelaçado, por um propósito maior: afinal, pra que a gente tem uma empresa desse tamanho? Claro que é para atender bem os clientes, oferecer serviço de qualidade, para rentabilizar seus acionistas, mas também para que esse País se transforme, se movimente, cresça, se desenvolva, e isso passa por um sentimento de propósito.

E nesse sentido o Itaú Unibanco não só investe para ter coerência com “core” e causa, para ter esse sentido de propósito, não só investe na cultura com recursos incentivados, mas também investe mais de 50% em projetos culturais com recursos não incentivados, porque aí “core” e causa passam a ter coerência porque também é muito fácil fazer causa só com incentivo fiscal.

A que você atribui as empresas, em geral, não terem esse mesmo raciocínio?

Primeiro eu acho que se estabelece, cada vez mais, uma cultura do pragmatismo na governança das empresas. Com a constituição cada vez mais explícita, e necessária, dos Conselhos, dos itens de governança, com a necessidade de, cada vez mais, se apresentar resultados consistentes para seus acionistas, e, com a cultura do não investimento social privado existente no País, esse conjunto de coisas empurra as empresas para serem muito pragmáticas. Agora, esquecem que quando você dá devolutivas consistentes para a sociedade você, a médio e longo prazo, e não a curto prazo, tem retornos importantes. Talvez esse pragmatismo dê retornos num curto prazo, mas muito provavelmente esse pragmatismo, aliado a essa cultura do não investimento social privado, empurre essas ações para uma artificialização do uso do investimento em cultura, por meio do incentivo fiscal, exclusivamente para alavancar a marca.

As empresas precisam ter a percepção de que o investimento na cultura tem como primeiro papel alavancar a cultura, fomentar a arte, fortalecer o campo do mundo das manifestações culturais. Este é o pressuposto. E se isso for bem feito, naturalmente, e aí num tempo de médio e longo prazo, você terá reverberação sobre a marca.

Sobre as mudanças de rumos que tiveram de fazer

A primeira coisa que precisa ser observada é de que não há política cultural no País. O que há são iniciativas pontuais, algumas muito boas, outras não tão boas, mas não há uma agenda comum para a constituição de uma política cultural. Não há uma estratégia onde os governos, a sociedade e os artistas comunguem uma agenda mínima para que a gente tenha uma política cultural efetiva e isso faz com que, a cada momento, as coisas oscilem muito em virtude do humor de quem está nos espaços de decisão. Então você tem um Plano Nacional de Cultura que tem mais de 50 metas. Ora, um projeto que tem mais de 50 metas, num espaço tão fragilizado, que ainda tem tantas coisas balizares para serem feitas, não é um projeto – quem tem 50 metas não tem nada.

Passamos de uma posição de um Banco importante, de uma posição de maior Banco privado, para hoje ocupar a posição de maior Banco brasileiro. E isso nos exige, como líderes, uma postura ainda mais ética, ainda mais exemplar. Quando você está falando de uma média empresa, você sabe das limitações, mas quando você está falando de uma grande empresa, a maior empresa, e ainda mais no setor financeiro, que é tão criticado, você precisa ir além dos exemplos, você precisa ir além dos compromissos que o “core” exige, e também, ao longo do tempo, isso fez com que o Itaú Cultural também mudasse.

Nesse ano, por exemplo, nós não vamos usar lei de incentivo. Todo o recurso do Itaú Cultural está sendo utilizado sem o incentivo da lei Rouanet.

Nesse mesmo volume?

Nesse mesmo volume – praticamente R$ 90 milhões. Isso foi fruto de um processo. Já estávamos numa curva descendente com o uso da lei Rouanet, e, numa curva ascendente, o uso direto, principalmente desde 2009, que foi quando o incentivo fiscal passou a ter um papel menor e o recurso direto um papel maior. A partir daí o uso da lei Rouanet veio numa curva descendente.

Sobre qualidade dos projetos

Está melhorando (qualidade), mas tem que melhorar mais. Acho que duas coisas estão na mesa, cada vez mais. Primeiro, o projeto tem que ser bom. Mas isso só não basta – é preciso ter governança. É claro que em um projeto pequeno você exige um tipo de governança à altura do projeto, mas você não pode fazer com que a atividade-meio consuma mais do que a atividade-fim e é importante que todos os produtores, sejam pequenos, sejam grandes, tenham preocupações sobre governança. Isso significa: como é que você está usando esses recursos? Como é que você está acumulando energia de maneira adequada, especialmente no momento da prestação de contas? E como você endereça todas essas questões como uso da lei Rouanet, sobre democratização de acesso, acessibilidade, sobre número de ingressos ou produtos para patrocinador, como é que você cumpre esses pressupostos, porque às vezes o projeto é maravilhoso do ponto-de-vista artístico, mas ele não tem condições de se alicerçar porque a governança é frágil. E também não adianta grandes governanças se do ponto-de-vista artístico ele é frágil. Então, cada vez mais, isso é um ponto de atenção na hora em que avaliamos um.

 

Sobre mudanças no Rumos

No caso do Rumos, primeiro há uma constatação e depois há quatro mudanças fundamentais. A primeira constatação é que, diferente do que se fala no ambiente futebolístico, em time que está ganhando se muda, porque se você for mudar só na hora em que perder certamente as mudanças não serão tão eficientes e se darão num clima de crise estabelecida. Então você deve mudar quando percebe que aquele projeto ainda está forte, ainda tem repercussão, mas a sociedade já está mudando, portanto você tem que realinhar aquele projeto.

Quando o Rumos surge, ele surge principalmente com a característica de que as artes permeavam menos umas às outras.

Hoje, com o avanço da tecnologia, com os efeitos de produção, que também está muito relacionado a edição, que passou a ser um elemento contemporâneo da produção artística, com a interface entre expressões com mais intensidade, com a troca de experiências entre teatro, literatura, música, cinema, artes visuais, dança…. e isso é cada vez mais intenso… então aquele modelo, que era um modelo fatiado em Rumos Cinema, Rumos Teatro, Rumos Dança, aquele modelo por segmento, por áreas de expressão, está cada vez menos presente. E mais: pensar que as expressões artísticas só estão restritas às áreas tradicionais também está em cheque, pois a gastronomia está cada vez mais presente, o design, que não é tão percebido quando você segmenta tanto, ou mesmo o mundo dos games, na área de tecnologia. Então a sociedade já estava num processo de mudança do entender artístico.

E qual será o rumo do Rumos amanhã?

Primeiro a gente vai constituir uma série histórica importante que vai além dos selecionados, que é o perfil de inscrições. Vamos chegar ao terceiro edital com esse modelo e certamente vamos superar os 35 mil inscritos no período e isso vai produzir ao Itaú Cultural talvez uma das maiores base de dados sobre o fazer artístico, sobre o desejo da produção cultural no Brasil, sobre a cena das proposições no campo da cultura do Brasil. A ideia é que, ao olhar essa série histórica, se comece a fazer análises sobre isso, e na medida em que a gente gera dados, gera reflexões, essa análise vai nos dar “input” para os próximos programas. Essa é uma base de dados viva e maravilhosa, precisa ser entendida, precisa ser compreendida, inclusive nos seus momentos históricos. Será que o fato de a gente ter tido um “impeachment” no ano passado vai influenciar no perfil das temáticas, nas proposições no próximo edital? Como é que isso impacta?

Cada vez mais o País discute questões no campo racial, no campo de gênero… será que isso estará ainda mais presente nessa edição? Como é isso em relação a seis anos atrás? Uma das coisas que eu desejo muito é entender essa série histórica e tentar produzir informações e fazer com essas informações possam se desdobrar para novos editais e para novos projetos culturais. O Rumos, para o Itaú Cultural, é um momento de muito oxigênio para a instituição, pois uma instituição grande e com 30 anos de história naturalmente tem vícios. O ruim é quando a gente não percebe quais são esses vícios. E o Rumos nos dá a oportunidade de não só percebermos esses vícios, mas também nos dá a oportunidade de perceber o que está vindo por aí. Quais são as novas demandas? Quais são as novas provocações? (N.da R: o novo edital do Rumos foi publicado em 25/08/2017, com prazo de inscrição até 03 de novembro pelo endereço rumositaucultural.org.br).

*É Editor Geral de Conteúdo dos portais Marketing Cultural e Portal de Patrocinadores.

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