Caminhos que Levam Além da Linha Amarela

Caldeirão cultural ferve à beira de via expressa, atiçado financeiramente por uma concessionária.

Favela Mundo Cidade de Deus. Projeto oferece oficinas de dança, música e teatro para jovens e adolescentes. (Foto Cacau Fernandes)

Favela Mundo Cidade de Deus. Projeto oferece oficinas de dança, música e teatro para jovens e adolescentes. (Foto Cacau Fernandes)

Para elaborar projeto cultural não há mais segredo, ou não deveria haver, com tanto “professor” na web mostrando como deve ser feito, embora dificuldades persistam mesmo assim. Porém, difícil mesmo, e estrategicamente vital – e isso você não vai encontrar lá – é identificar qual a empresa certa, ou, pelo menos, qual tem o perfil mais adequado para abraçar seu projeto e torna-lo realidade.

Foi pensando nisso, em como facilitar o caminho para produtores e proponentes, que criamos, no Portal de Patrocinadores, um Banco de Dados com o perfil de mais de mil empresas que patrocinam cultura, disponível para assinantes, e além disso vamos agregar, com certa assiduidade, matérias e depoimentos com os próprios responsáveis pelos investimentos em cultura ou ações socioculturais de empresas que tenham política definida para essas aplicações. Eles vão contar, de própria voz, o que pensam, como agem, e, principalmente, o que esperam das propostas que recebem.

Essa série começa com uma companhia que trabalha entre 20 e 30 projetos por ano, de diferentes portes orçamentários, com o objetivo de melhorar o ambiente social de quem vive no entorno da Linha Amarela, no Rio de Janeiro. Afinal, esse interesse tem razão de ser: LAMSA é uma contração de Linha Amarela S/A, a companhia que administra 25 quilômetros dessa via expressa que liga Jacarepaguá à Ilha do Fundão e impacta diretamente milhões de pessoas que habitam em 23 comunidades, entre elas grandes complexos como Cidade de Deus e Maré. É uma subsidiária da Invepar,

Em 2015, segundo a LAMSA, projetos nessas localidades beneficiaram cerca de 100 mil pessoas. Entre essas histórias estão iniciativas de educação, esporte, cultura e meio ambiente, como é o caso do Arte em Costura, que visa oferecer formação profissional, gerar renda e promover o bem-estar de mulheres que residem na Cidade de Deus e que se encontram em situação de vulnerabilidade social. Outro exemplo é o Cinemaneiro DOC, que oferece acesso aos meios de produção audiovisual, apresentando técnicas e processos para a realização de documentários, através da capacitação de até 60 jovens moradores de Água Santa (Morro da Família) e Inhaúma (Gretisa e Águia de Ouro), com a realização de quatro documentários de curta duração com temática socioambiental.

Contudo, a empresa enfrenta algumas dificuldades na hora de escolher uma ideia para investir. “Hoje a gente tem um desafio que é encontrar bons projetos. Nós avaliamos tecnicamente a elaboração, as atividades pensadas, quanto está destinado ao pagamento de pessoal, se há valor agregado à sociedade, a transparência na prestação de contas e inúmeros outros aspectos”, lista Giovanna Curty – Gerente de Comunicação, Sustentabilidade e Marketing da LAMSA.

Segundo ela, a escolha do projeto também se pauta no tema apresentado. Empreendedorismo, educação, conscientização no trânsito, cultura e esportes são bases interessantes, mas devem ser pensadas de acordo com a identidade do público alvo. “Nós procuramos conhecer a realidade local e identificar as oportunidades de geração de projetos que tenham a ver com a região. Se a população não se identificar, não gera engajamento”, explica, complementando: “Por exemplo, uma comunidade com DNA para artesanato, com muitas costureiras e artistas locais. Um projeto de esportes provavelmente não vai vingar”.

 

Esteja atento também para sempre apresentar evidências de que sua iniciativa está sendo desenvolvida e cumprindo o acordo com a empresa que financia o seu projeto. Junte fotos, listas de presença, notas fiscais e tudo o que puder para mostrar ao seu patrocinador ao final de tudo. Essa transparência pode te abrir portas no futuro.

Não menos importante, o cronograma orçamentário e físico do projeto é outro ponto chave para atrair patrocinadores. Curty alerta que o investimento solicitado deve ser coerente com a atividade realizada. Também é importante que o tempo de duração seja adequado e suficiente. Nesse sentido, há alguns requisitos que podem acentuar o interesse da empresa. “Um projeto quando envolve mão de obra local, chama a atenção porque vai gerar emprego e renda naquela região. Também é muito interessante quando há outros parceiros envolvidos, principalmente o poder público. Quando a ideia consegue alinhar estratégia social com política pública, há muito valor agregado”, indica.

Nesse sentido, um exemplo de projeto que conseguiu o patrocínio da LAMSA é o Eco Rede, que foi desenvolvido na Maré e na Cidade de Deus. O objetivo é promover o desenvolvimento social, econômico e ambiental das comunidades, a partir de um amplo e integrado Projeto de Educação Ambiental e Geração de Trabalho e Renda. Vale ressaltar que a companhia não trabalha com projetos na área de saúde.

Cinemaneiro. Oferece acesso aos meios de produção audiovisual na Maré, Cidade de Deus e Agrícola de Higienópolis. (Foto Frederico C.)

EDITAIS – Na LAMSA, a escolha das ideias se dá por editais, que são abertos a cada dois anos e 2017 será um deles. Contudo, Curty explica que, caso alguma grande ideia chegue fora do período citado, a empresa recebe, avalia e analisa o potencial para, em seguida, buscar alternativas de investimento. Se uma ideia for muito boa, mas mal apresentada, a concessionária também tenta ajudar, principalmente quando se trata de uma proposta desenvolvida por lideranças comunitárias.

Por ano, a LAMSA patrocina de 20 a 30 projetos, usando as leis Rouanet e de Incentivo ao Esporte; ou via recursos diretos. “Optamos por projetos de portes variados, mas, em sua maioria, de orçamento mediano para podermos bancar integralmente e fazer o acompanhamento completo. Para usar os incentivos fiscais, buscamos ideias que contemplem toda a forma de cultura permitida pela lei. Quando falamos de recursos diretos, é possível flexibilizar um pouco mais, como ações no trânsito, por exemplo”, finaliza.

Ao ser informada que a empresa ainda precisa dar mais transparência às suas ações, dentro de seu website, para ganhar estrelas a mais em nosso Perfil de Patrocinadores, Giovanna Curty disse que vai levar isso em consideração, mas deixou um recado:

“A gente faz encontros na nossa empresa convidando todos os produtores culturais, todas as comunidades do entorno, dizendo quais projetos estão acontecendo, qual lei está sendo usada, por que um projeto tem verba maior ou menor. Quem trabalha dentro das regras não tem nada a esconder”.

Acessando nosso conteúdo premium você vai conhecer outros aspectos da entrevista, onde Giovanna Curty detalha os critérios que usa para acolher um projeto, as dificuldades que enfrenta e as soluções que propõe, além de vídeo com a íntegra da entrevista e podcast com os melhores momentos. Consta ainda a lista dos projetos que a empresa desenvolve em 2017, além de um resumo do quanto ela já investiu utilizando lei Rouanet e que áreas foram beneficiadas.

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